Por Alan Tygel e Vanessa Ramos, do MST
Da Página do MST

Mais do que lembrar o Dia Internacional das Mulheres, o 8 de março foi marcado por representações de força e luta.

Cerca de 500 mulheres marcharam pelo bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, em torno da mesma pauta: o fim da violência contra as mulheres.

O ato reuniu mais de 20 organizações do campo e da cidade, e fez diversas homenagens aos Garis, que no fim do dia encerraram sua histórica greve que marcou o carnaval carioca.

A escolha da Lapa como ponto de partida da marcha não foi aleatória. De acordo com Maria Luísa Duarte, da Marcha Mundial das Mulheres, a região tem sido palco de constantes violências contra as mulheres como estupros, assédios e prostituições.

“É um espaço central de lutas para a gente, nesse período de Copa do Mundo e de eventos, por isso nós temos realizado ações de conscientização na região desde o ano passado”, explicou Maria.

Na segunda-feira de carnaval, uma jovem de 18 anos foi estuprada e morta na Rocinha, Zona Sul do Rio. Segundo Eleutéria Amora, da Casa das Mulheres Trabalhadoras (Camtra), só no mês de janeiro, cerca de 35 mulheres foram mortas esse ano, vítimas de violência, no Rio.

“Nós temos um problema muito sério na política brasileira para as mulheres: elas são ineficazes, insuficientes. O estado do Rio de Janeiro não garante a vida das mulheres. Nós precisamos avançar nessa pauta”, completou.

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Cantos e discursos lembraram o altíssimo número de estupros e assassinatos de mulheres no Brasil. No momento mais emocionante foram lidas histórias de mulheres que perderam a vida por conta do machismo, na maior parte dos casos, vítimas de maridos ou ex-maridos. (Veja as histórias abaixo).

Violência atinge a cidade, mas não deixa de fora mulheres do campo

No entanto, a violência contra as mulheres não é um problema exclusivo da cidade. Infelizmente, ele também está presente no meio rural. “Nós entendemos que temos que estar presentes nessa luta porque ela também representa resistência contra a violência na área rural brasileira. Lugar de mulher é na luta!”, afirmou Elisângela Carvalho, da direção nacional do MST.

A marcha no dia 8 de março já é um ato tradicional no cenário carioca, e neste ano o MST trouxe estampado, num cartaz, a cor e a graça de uma mulher que merece ser lembrada: Regina Pinho dos Santos, brutalmente assassinada em fevereiro de 2013, no Assentamento Zumbi dos Palmares, em Campos dos Goytacazes, município da região norte do Rio de Janeiro.

“Ela tinha força e gana. Era uma camponesa que lutava pela Reforma Agrária, pela agroecologia, pela soberania alimentar. Ela era uma Sem Terra”, contou Elisângela, emocionada.

Ainda durante o ato, as mulheres foram alvo de provocações machistas de um grupo pequeno de baderneiros, que precisou ser retirado da marcha. A ação culminou em violência entre homens que apoiavam o ato e os provocadores. Apesar do incidente, a atividade terminou de forma animada com uma grande ciranda em torno dos arcos da Lapa.

Homenagens

Após a manifestação, o grupo Samba Brilha homenageou movimentos que promovem a luta pelos direitos das mulheres, como a Camtra, o Sindicato de Jornalistas Profissionais de Rio de Janeiro, o Movimento Olga Benário, o bloco Maria Vem com as Outras, a RENAFRO, a ABIA, o CISVE e a Rede de Comunidades Conta a Violência.

As mulheres do MST também receberam uma homenagem em nome da militante Nivia Regina da Silva: “O Movimento de Resistência Cultural em Defesa da Preservação da Cinelândia e do Samba de Raiz ‘O Samba Brilha’ presta homenagem especial a todas as mulheres do Movimento da Mulheres Trabalhadores Sem Terra por suas relevantes contribuições para a valorização da cultura popular brasileira através do seu engajamento em diferentes movimentos sociais, porque sempre ‘vamos precisar de todo mundo’.

Veja abaixo o texto lido durante o ato:

No Brasil, uma mulher é agredida a cada 15 segundos a maioria é vítima dos companheiros ou ex-companheiros. Todo dia, 15 mulheres são assassinadas no país, 40% delas por parceiras ou ex-parceiros. Todos os anos são registrados 50 mil casos de estupros. Mas a maioria das mulheres não denuncia as violências sofridas. Somos muito mais que 50 mil. Somos todas!

Meu nome é Rebeca

Tinha 9 anos

Morava na Rocinha

Fui estuprada e estrangulada

Por um homem

Que me tirou de uma festa de aniversário

E me levou para um terreno baldio

Se ser uma menina

é motivo para ser estuprada e assassinada,

Basta de violência contra as mulheres

Somos todas companheiras,

somos todas Rebeca.

 

Meu nome é Elisa

fui assassinada

meu corpo foi jogado para os cachorros.

Meu ex-namorado é suspeito

Ele não queria pagar a pensão do meu filho.

Se exigir nossos direitos

é motivo para ser assassinada,

Basta de violência contra as mulheres

Somos todas companheiras,

somos todas Elisa.

 

Meu nome é Eloá.

Tinha 15 anos.

Fui sequestrada e assassinada

pelo meu ex-namorado

Ele não queria o fim do namoro.

Se namorar só com quem nós queremos

é motivo para sermos assassinadas

Basta de violência contra as mulheres

 

Somos todas livres,

somos todas Eloá.

Meu nome é Paula

Tinha 22 anos

Morava no Andaraí

Fui torturada pelo meu marido

Ele me espancou

Ameaçou matar meus filhos

Me queimou com o ferro de passar

Escreveu seu nome com uma faca nas minhas costas

Disse que me queria bem feia

Para que eu não pudesse ficar com mais ninguém

Se sermos livres

É motivo para sermos marcadas como gado

Basta de violência contra as mulheres

Somos todas livres,

somos todas Paula.

 

Meu nome é Amanda (fictício)

Tinha 18 anos

Fui estuprada dentro de uma van

Por 4 homens diferentes

Se estar em um transporte público

É motivo para ser estuprada

Basta de violência contra as mulheres

Somos todas companheiras,

somos todas Amanda.

 

Meu nome é Caroline

Tinha 24 anos

Morava em Rio Claro

Eu e minha irmã fomos assassinada à tiros

Na porta de casa

Pelo meu ex marido

Que não aceitou o fim do relacionamento

Se não querer mais apanhar

Se dizer BASTA!

É motivo para sermos assassinadas

Basta de violência contra as mulheres

Somos todas companheiras,

somos todas Caroline.

 

Meu nome é Fernanda e Silvia (nome fictício)

Temos 16 anos.

Fomos estupradas por oito homens

músicos da banda new hits.

A juíza nos perguntou

porque aceitamos entrar no ônibus.

Se entrar em um carro

é motivo para sermos estupradas

Basta de violência contra as mulheres

Somos todas companheiras,

somos todas Fernanda e Silvia.

 

Me nome é Bianca,

Tinha 14 anos,

Fui estuprada e assassinada

por um amigo de meu pai.

Meu corpo ficou escondido na minha própria casa

debaixo da cama do meu assassino.

Se ser adolescente

é motivo para sermos estupradas

Basta de violência contra as mulheres

Somos todas adolescentes,

somos todas Bianca.

 

Meu nome é Gabriela (fictício)

Fui estuprada no estacionamento da Uerj

O estuprador disse que era pra eu aprender

A gostar de homem

Se sermos bissexuais

É motivo para sermos estupradas

Basta de violência contra as mulheres

Somos todas livres,

somos todas Gabriela.

 

Meu nome é Mariana (fictício)

Tinha 12 anos

Morava na Barra

Fui estuprada por 3 amigos

Em uma festa

Eles me embebedaram

Filmaram tudo

E colocaram na internet

Se estar vulnerável

É motivo para sermos estupradas

Basta de violência contra as mulheres

Somos todas companheiras,

somos todas Mariana.

 

Meu nome é Maria da Penha

fui espancada diariamente

pelo meu marido

Ele atirou em mim

Me deixou paraplégica .

Se não querer mais apanhar

Se dizer BASTA

é motivo para sermos perseguidas,

Basta de violência contra as mulheres

Somos todas lutadoras,

somos todas Maria da Penha.

 

Meu nome é Gleice Oliveira

Tinha 18 anos

Morava na Rocinha

Fui amarrada, estuprada e morta

No banheiro de um bar

Durante o último carnaval

Se querermos nos divertir

E se sair só com quem nós queremos

É motivo para sermos estupradas e mortas

Basta de violência contra as mulheres

Somos todas companheiras,

somos todas Gleice!


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MEXEU COM UMA

MEXEU COM TODAS

MEXEU COM UMA

MEXEU COM TODAS!