Por José Coutinho Júnior
Da Página do MST

 

Em entrevista à Página do MST, Diego Monton, membro do Movimiento Nacional Campesino Indigena (MNCI) argentino e integrante da secretaria da Coordinadora Latinoamericana de Organizaciones del Campo (CLOC), analisa a luta pela terra na Argentina e na América Latina, o papel da integração dos movimentos sociais do continente e como as organizações devem agir nas mobilizações de massa recentes.

Confira:

Qual a situação da luta pela terra na Argentina?

O contexto nos últimos 20 anos é de resistência. A ofensiva do capital financeiro e das corporações na agricultura se espalhou aos territórios historicamente campesinos e indígenas. É uma luta contra o avanço do agronegócio.

Ao longo da história, não tivemos momentos de ofensiva popular na questão da terra, até quando se avançou na luta popular dos trabalhadores, a questão da terra não estava posta nesse projeto popular, e não tínhamos práticas relacionadas à Reforma Agrária.

Nesse último período os movimentos campesinos começaram a pautar as outras organizações para tratar a questão da terra como central.

Como a luta dos indígenas se insere nesse contexto?

A luta indígena existe desde a chegada dos espanhóis. É uma resistência de 500 anos, muitas vezes vinculada à liberação de toda América Latina, como a rebelião de Tupacamaro, que chegou ao sul da Argentina, e depois se opôs a vários processos que tem a ver com a consolidação do estado burguês.

Uma das mais importantes lutas foi no fim de 1880, quando a elite avançou sobre territórios indígenas causando massacres. O movimento indígena sempre teve certo protagonismo, e houve uma grande retomada deste protagonismo com essa ofensiva neoliberal.

No Brasil, o uso de agrotóxicos e transgênicos nas lavouras é muito grande. Na Argentina isso também ocorre?

É similar. Alguns acadêmicos inclusive falam da “pátria da soja” que está tomando o cone sul. Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina tem um modelo parecido, onde a soja transgênica encontrou regiões climáticas e terras onde se adaptou e avançou.

Hoje falamos de milhões de toneladas de agrotóxicos que se fumigam, sementes transgênicas são produzidas em cinco transnacionais na Argentina, há um esvaziamento do campo, trabalho escravo... mas também há um movimento importante que foi surgindo nos pólos rurais de resistência à aplicação.

Vemos claramente os impactos na população que é exposta aos agrotóxicos: aumento da taxa de enfermidade de câncer na população rural, de mortalidade infantil.
Recentemente, a justiça argentina rechaçou o relatório de impacto ambiental da Monsanto de uma nova planta que ela queria construir.

Isso é consequência de uma longa luta liderada por mães de um pequeno pueblo, onde os filhos morreram de câncer. Estamos em uma nova etapa, na qual há uma consciência importante dos argentinos sobre o modelo.

Não faz muito tempo, as mães de Buenos Aires que vivem na cidade provaram que mais de 80% tinham rastro de agrotóxicos no leite materno, mesmo não tendo sido expostas à fumigação; a contaminação veio dos alimentos.

Esse debate está forte na Argentina. Antes a crítica era contra a velha oligarquia agrária; hoje,as empresas e seus atores estão visíveis. 

A imprensa propagada que o agronegócio é o modelo do futuro? E como a lei de meios altera a estrutura da imprensa na Argentina?

Os meios de massa respondem ao projeto político do capital financeiro. As corporações, a imprensa, o setor que detém a terra e a mídia são um só bloco. Nesse sentido, a lei de meios abre espaços para que outras vozes que não as do capital se expressem.

Quais os motivos da instabilidade econômica argentina?

O governo estabeleceu benefícios de retenção das exportações. Ou seja, o estado fica com parte da renda do que se exporta, e isso tem equilibrado muito a balança comercial. Com isso, temos uma parte do que se autodenomina burguesia nacional, mas que não existe como tal, que defende o modelo do agronegócio para a economia argentina.

Até uma parte dos chamados setores progressistas defende o agronegócio, dizendo que é uma forma de equilibrar a balança e ter um desenvolvimento econômico equilibrado.

No entanto, nesses últimos dias, atravessamos uma crise que mostrou a fragilidade desse discurso, porque quando as corporações precisam que o dólar tenha outro valor, tudo que precisaram fazer foi reter a soja e demorar alguns meses para retornar os dólares das exportações, agora desvalorizados, para o banco central.

Com essa pequena manobra, o banco central teve que gastar dólares para que a moeda não subisse, o que gerou um choque psicológico, porque os especuladores argentinos  dependem do dólar, que aumentou em demanda.

Foi isso que fez a Shell, e para que possamos ver como as corporações são uma grande classe ideológica, como Mosanto e Cargil também agiram.

E tudo isso nos levou a voltar a discutir o papel das corporações e tudo que elas sustentam no país: uma estabilidade econômica que depende da vontade destas corporações, que só se importam com lucro e ganância, e quando isso está ameaçado, elas não tem nenhum problema em quebrar um país se precisarem.

Qual a importância de se integrar os movimentos sociais da América Latina?

A reflexão que fazemos de 2009 para cá é de um contexto onde as lutas nacionais tem limites. E a liberação dos povos por meio de uma ofensiva popular depende da capacidade de se unir em nível continental.

O modelo econômico mantém o nosso continente subordinado, e se não pensarmos em articular uma ofensiva de lutas populares integradas, podemos retroceder facilmente.

Estamos em uma etapa em que os processos nacionais são importantes, mas temos que encontrar os mecanismos para que tenham uma coordenação à nível continental, e a CLOC-Via Campesina pode ser uma das ferramentas que nos permita isso.

Como você analisa o papel dos chamados governos progressistas da América Latina?

Vemos que esses governos, apesar de surgirem da luta popular e se apoiam nela para avançar, atendendo a algumas demandas dos setores populares, se encontram num contexto de desenvolvimento econômico muito complexo, de pobreza, endividamento externo, que limita as possibilidades de avançar.

Onde mais puderam avançar foi no aparato estatal que se apropria de certa parte da renda das empresas, mas em nenhum desses estados ocorreram transformações estruturais profundas. A acumulação de capital continua marcando o ritmo e desenvolvimento do continente.

Este é o grande desafio que essas experiências mostram. É muito difícil fazer mudanças estruturais somente em um país, considerando a economia globalizada. Por isso a importância de se integrar países e organizações da América Latina.

Como você vê as recentes manifestações ocorridas no Brasil?

É um grande desafio compreender essa chama que está acendendo, e vem dos movimentos sociais poder auxiliar para que não sejam apenas manifestações de indignação, mas que acumulem forças para um projeto político popular.

Aí é onde tem um papel chave os meios de comunicação, que tentam cooptar essas mobilizações para que se tornem reacionárias, e aí a organização popular é fundamental, graças à legitimidade que criaram ao longo dos anos.

No início dos anos 1990, quando estávamos nessa crise de fim das ideias que a burguesia queria impor, o MST rompeu com esse discurso, organizando e educando os sujeitos excluídos nas mobilizações de massas na rua.

Lamentavelmente muitos setores de esquerda acreditam que é possível avançar sem ação direta, sem o povo na rua. Movimentos como o MST mostram que a ação na rua e a análise inteligente dos passos a dar deve caminhar lado a lado.

É assim que precisamos nos relacionar com os setores da sociedade que começam a perceber as contradições do modelo. É uma oportunidade, e tomara que possamos aproveitar e nos somar a estas lutas.