Por Alan Tygel, Leonardo Ferreira e José Coutinho Júnior
Da Página do MST 

Fotos: Pilar Oliva

No dia 26 de junho de 2002, centenas de famílias se mobilizaram em Puente Pueyrredón, periferia de Buenos Aires, por trabalho, educação, e pelo fim da repressão.

A resposta do então governo Duhalde foi mais repressão, e protagonizou o episódio que ficou conhecido como massacre de Avellaneda. O saldo foi de 150 detidos, dezenas de feridos, e dois mortos.

Um deles foi Maximiliano Kosteki, jovem artista popular de 26 anos. Enquanto ele agonizava no chão, outro jovem da mesma idade foi socorre-lo, e acabou sendo morto: Dario Santillan.

Em dezembro de 2004, trabalhadores desempregados fundaram a Frente Popular Dario Santillan. Ana Villar e Esteban Marcioni, membros da organização, participaram do VI Congresso do MST e deram uma entrevista à página do MST.

“Lembramos de Dario Santillan não só por este gesto heroico, mas por toda sua militância. Dario era uma referência para todos estes jovens, que em plena crise do neoliberalismo optou por começar a organizar esse movimento de massa que havia sido derrotado durante a ditadura militar e neoliberalismo na Argentina.”, explica Ana. 

De acordo com Esteban, a frente começou organizando a base não só pelos bairros, mas também nas universidades e nos sindicatos. “Estamos em todos os lugares onde há trabalhadores dispostos a lugar por uma Argentina diferente.” Confira a Entrevista:

Qual é o trabalho e onde a Frente atua?

Esteban: A frente se organiza em quatro setores de trabalho: estudantil, trabalho nos bairros, sindical e rural periurbano. Além dessa divisão temos alguns espaços temáticos, como juventude e gênero.

Temos como objetivo utópico de luta o socialismo, mas lutamos pelas conquistas concretas que vão construir uma América Latina socialmente justa.

Quais são as parcerias entre a Frente e o MST? 

Ana: Historicamente temos uma referência muito forte no MST. É uma inspiração para todos nós. Ele cumpre um papel fundamental tanto nas articulações latinoamericanas quanto na possibilidade de formação de militantes dentro das instâncias do MST.

Nós temos participado de diversos cursos e tentamos, na medida do possível, replicar estas experiências aqui. Compartilhamos a filosofia do MST e consideramos que estes espaços que possibilitam o encontro de militantes de todo o mundo para refletir sobre nossa prática e para formar os militantes com uma visão latinoamericana revolucionária são fundamentais.

Como anda a conjuntura política na Argentina?

Esteban: Vivemos uma conjuntura bastante conturbada nos últimos dias, produto de movimentos econômicos que estão ocorrendo no país. Por um lado, uma inflação bem alta e uma desvalorização da moeda que o governo promoveu na última semana, o que é muito prejudicial aos trabalhadores.

Isto provocou um processo inflacionário que levou o custo de vida a ficar mais alto. Além disso, estão havendo certas movimentações da classe política porque as eleições se aproximam e Cristina não pode concorrer novamente. Então temos a disputa de quem seguirá este modelo.

Isto em meio a uma situação que podemos chamar de pré-crise, o que é muito grave para os setores populares. O dinheiro vale cada vez menos, o aumento dos salários não acompanha a inflação, e o pior, esse aumento não contempla os precarizados, que são 40% dos trabalhadores da Argentina.

De um mês para cá, uma grande parte da população tem menos dinheiro. Não sei se podemos chamar de crise, mas estamos na porta dela. 

Como é a posição da Frente em relação ao governo Cristina?


Esteban: Nós reconhecemos que o governo, desde Nestor Kirchner, no processo que chamamos de Kirchnerismo, assumiu bandeiras que os setores populares levantavam. Um exemplo são os julgamentos dos repressores da última ditadura militar.

Essas bandeiras nos parecem boas. No entanto, entendemos que o Kirchnerismo está alicerçado sobre a base do agronegócio, basicamente através da soja, e mais recentemente pelo pinus [espécie de eucalipto].

Outro pilar é a mineração a céu aberto. Com isso, reconhecemos um certo grau de avanço em certas políticas sociais, mas não podemos dizer que é o nosso projeto. É um projeto que favorece as classes que combatemos.

Assim como os camponeses, queremos que se fomente a agricultura familiar, e não queremos um governo cuja base econômica seja a mineração a céu aberto. 

Sabemos que a Frente faz um bom trabalho de comunicação. Como veem a lei de meios implementada por Cristina?

Esteban: É um grande avanço enquanto legislação, pois ainda usávamos a lei da época da ditadura. As organizações populares tinham uma proposta para a lei que contemplava melhor os meios comunitários.

Ela é muito importante porque desconcentra o poder dos grandes grupos, sobretudo do grupo Clarin, que é como a Globo no Brasil. No entanto, a lei aprovada não favorece as rádios e TVs comunitárias, e ainda as faz competir com meios ligados às igrejas, que possuem muito mais recursos.

Mesmo assim, a lei foi aprovada, mas as mudanças na prática foram mínimas. É muito bom que tenhamos uma boa lei de meios, e que ela sirva de espelho para outros países latino-americanos.

Você afirmou que o governo de Cristina se baseia no agronegócio e na mineração. Este setor tem se expandido muito desde Nestor Kirchner?

Ana: Sem dúvidas se expandiu, com tudo que ele traz consigo, como por exemplo o avanço da fronteira agrícola sobre as famílias camponesas.

Este modelo tem crescido exponencialmente desde 2003, tanto que um dos setores que mais lucrou durante os governos Kirchner foram os fazendeiros da soja.

No Brasil, temos um problema muito grande com os agrotóxicos. O uso de venenos também é grande na agricultura Argentina?

Esteban: Recentemente tivemos uma experiência muito interessante com as mães do bairro de Ituzaingo, em Córdoba, que é a segunda cidade mais importante da Argentina.

A Monsanto estava tentando instalar uma fábrica neste local, o que iria provocar uma grande contaminação de pesticidas. As mães então foram à Justiça e conseguiram barrar esse empreendimento. Este é um grande exemplo de que quando há luta, podemos vencer. 

Você mencionou a atuação da Frente em territórios periurbanos, trabalhando a relação campo-cidade. Como é esta atuação?

Ana: Há algum tempo iniciamos uma experiência com um setor que identificamos como muito vulnerável, que são os produtores de frutas e hortaliças que abastecem a capital e as grandes cidades. Começamos com uma experiência em La Plata, no Parque Pereira, buscando a criação de um sindicato de produtores rurais, que poderia se converter em um sindicato nacional. 

Começamos primeiro a problematizar não só a posse e a propriedade da terra, mas as condições absurdas que são submetidos para colocar seus produtos no mercado. Por um lado, ficam atados às sementes comerciais, e por outro, são obrigados a entregar quase metade da produção aos supostos donos da terra.

Nesse sentido, tentamos coletivizar o transporte dos alimentos e também criar uma rede de comercialização, buscando produção de alimentos agroecológicos. Esta experiência está crescendo, e deixa em evidência que campo e cidade devem estar unidos.